9 de out de 2013

Inclusão: ela tem a ver com mudança!

O texto que coloco a seguir é de autoria de Marsha Forest e Jack Pearpoint e foi escrito há 22 anos, mas não poderia ser mais atual. Nesse momento, não falo como mãe de uma criança com SD, mas como educadora que sou. Quantas vezes nos escondemos atrás de frases prontas tais como “não estamos preparados para a inclusão”, “não temos recursos”, “muita coisa tem que mudar no ensino antes de incluir” para não deixar transparecer que temos medo de mudanças?

Quando li esse texto não pude deixar de lembrar-me de quando comecei a dar aulas e pisei em uma escola pela primeira vez, mais ou menos na mesma época em que esse texto foi escrito. Universitária do curso de Letras, assumi algumas turmas de ensino fundamental substituindo uma professora que havia tirado licença de saúde. Quando cheguei à Escola percebi que havia uma espécie de rodízio de licenças, quando um professor chegava outro saía, e o motivo era sempre o mesmo: depressão.

Realmente senti um clima extremamente deprimido na escola, professores com ares cansados, ombros caídos, uma sombra de tedio e mesmice em cada olhar. O assunto que reinava na hora da pausa era troca de receitas de medicamentos e chás caseiros, para dormir, para emagrecer, para engordar, para ser feliz. Eu com a minha vivacidade típica dos 20 anos destoava do grupo e o que mais escutava era, - você é assim tão empolgada porque está apenas começando, venha falar comigo em 20 anos... Confesso que essa situação me assustou no começo, será que essa é a minha sina? Que cruel seria a vida se apesar dos péssimos salários os professores também estivessem fadados a perder seu brilho e sua essência em meio a cuspe e giz!?

Então comecei a observar meus colegas para ver quem poderia ser eu em 20 anos. O professor de matemática que chegava todo dia e dizia - um dia a menos para a aposentadoria, estava descartado, por mais dura que fosse minha vida, jamais a veria sob a perspectiva do fim. Entre personalidades tão completamente diferentes da minha encontrei uma que sim poderia ser eu, a da professora História, uma mulher jovem, de seus 45 anos, amável, comunicativa, prestativa, mas que carregava um olhar de cansaço, de frustração, como se ela sentisse falta da moça que foi, mas não achasse que seria capaz de voltar a vivê-la. Comecei a acompanhá-la mais “de perto”, e percebi que ela tinha muito bom material, reportagens interessantes, pontos de vista críticos, mas eram os mesmos há mais de 20 anos,algumas matrizes ainda  eram em estêncil, feitas no mimeógrafo, aquele velho aparelho de fotocópia a base de álcool cujo cheiro remetia-me à infância. Nesse momento tive a impressão que, com boa intenção, ela passou as últimas duas décadas repetindo a ótima professora que foi no primeiro ano.

Não fiquei por muito tempo nessa escola, o ano letivo terminou e como era substituta não voltei a ter minha vaga no ano seguinte ali, mas esses poucos meses deram-me uma lição para toda a vida. Naquela época eu jurei para mim mesma que jamais perderia o brilho, que jamais repetiria os mesmos textos, as mesmas atividades de um ano a outro, jamais programaria minhas classes sem dialogar com os alunos, jamais me deixaria acomodar na rotina dura e pesada de um sistema de ensino que muitas vezes nos amarra, rouba os sonhos que trazemos e nos impede de sonhar novos.

Voltei à Escola no ano seguinte para buscar uma documentação e encontrei alguns ex-colegas na pausa. Estavam todos alvoroçados com uma nova lei que estava sendo discutida - querem colocar os alunos da APAE na nossa escola, me disse o professor de matemática, como se isso fosse o fim do mundo. Ao falar com a professora de História sobre o tema, percebi um brilho no olhar, realmente será desafiador, disse ela, terei que adaptar todo meu material, será muito trabalho, mas já tenho algumas ideias.

Todos os alunos são diferentes, mas quando essas diferenças não são tão pontuais como no caso dos alunos com deficiência, corremos o risco de não perceber que ensinar não deve ser um monólogo. A chegada de alunos com deficiência em uma escola regular nos obriga a mudar materiais, métodos, linguagem e formas de comunicação. Obriga-nos a sair daquele ciclo de causa e consequência que se de um lado nos faz infeliz, pela mesmice, pela rotina, de outro nos dá certo conforto, afinal eu sei o que vem depois. A mudança traz consigo a oportunidade de recomeçar, de voltar a acreditar em si como uma pessoa capaz de mudar destinos, percebi isso nos olhos da professora de História, o brilho vinha do desafio pelo novo, desafio que a fez voltar a ser aquela professora recém-formada que queria fazer diferença mesmo depois de 20 anos de magistério. Para que a verdadeira inclusão escolar aconteça é preciso ver a possibilidade de reinventar-se, de superar-se, de voltar a aprender como algo prazeroso, afinal como já disse Cora Coralina, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.


Inclusão: ela tem a ver com mudança!
Por Marsha Forest e Jack Pearpoint*

Inclusão significa mudança! Nós acreditamos que tanto a inclusão quanto a mudança são inevitáveis. Crescer com essas mudanças (ou a partir delas) é uma escolha nossa. Tem sido esclarecedor termos participado de centenas de reuniões cheias de emoção sobre “inclusão”, pois fica claro, depois de alguns minutos, que a inclusão é apenas nominalmente o tópico. O tema real (raramente declarado) é o medo da mudança! Muitas pessoas na educação e serviços humanos têm medo de perder seus empregos. Medo de novas responsabilidades. Medo do que eles não entendem. Medo de serem responsabilizadas.
As palavras que dizem são: “mas nós não temos dinheiro suficiente!”, “não fomos treinados para cuidar deles!”, “não escolhi educação especial!”, “não tenho conhecimento de currículo especial e não tenho tempo de criar um programa especial para ‘eles’”, “as outras crianças vão sofrer!”
Todos reconhecemos essas frases.
Analise mais atentamente. A maioria dos “se” são em relação ao “mim”, ao “eu”. As dúvidas em relação a dificuldades para as outras crianças refletem tanto a ignorância de virtualmente tudo o que sabemos (durante séculos) sobre aprendizado cooperativo e ensino dado pelos coleguinhas e, muito freqüentemente, são um disfarce para esconder conceitos como: “não quero me arriscar a perder o controle”, “tenho medo de que as pessoas possam ficar sabendo que não sei de tudo!”, “não quero fazer isto”, “tenho Medo!”. Esta última é a frase-chave por baixo de toda a resistência e lamúria.
Porém, para muitos há medos mais profundos, que precisam vir à tona com delicadeza. As pessoas têm medo de serem “confrontadas” com sua própria mortalidade, com a imperfeição. Elas têm medo de “pegar isso”. Esses medos, profundamente arraigados, são fruto de nossa cultura.
Não é culpa das pessoas (professores e trabalhadores em serviços humanos) que estejam com medo. Todos fomos ensinados a “colocá-los longe de nossa vista” e, como cidadãos e contribuintes, fizemos isso mesmo. Porém, agora sabemos que “colocar pessoas longe de nós” é uma decisão que fica a um só passo do extermínio. O filme “A Lista de Schindler” nos lembra de que a segregação em qualquer gueto é uma ameaça à vida.
A resposta é que devemos enfrentar o medo e fazer. Isso mesmo: incluir todos. Isso vai ser desconfortável — até mesmo aterrador durante alguns momentos –, mas passa. Quando enfrentamos nossos medos e seguimos em frente, apesar deles, imediatamente esses diminuem e entram em perspectiva. Tivemos conversas com centenas de “Sobreviventes da Inclusão” — professores e trabalhadores em serviços humanos — que ficaram petrificados. Aguentaram algumas semanas de “Terapia do Tylenol” e aí, como num passe de mágica, o terror passou. Ao entrevistar pessoas sobre aquele período, existe um padrão avassalador: cada pessoa, isoladamente, lembra de ter estado aterrorizada. Ninguém consegue lembrar do que estava com medo. As pessoas lembram, apenas, de que estavam com medo — e isso passou. Geralmente, leva cerca de seis semanas, que é o padrão geral para qualquer situação de crise para voltar ao normal.
Há lições a serem aprendidas.  Muitas vezes, dizemos às pessoas que estão para se confrontar com a mudança: “não se preocupe, não tenha medo!”. Isso é bobagem! Inclusão tem a ver com mudança. E mudança é algo aterrador – para todos nós. Nossos corpos são desenhados para buscar “homeostasis” – equilíbrio.
Mudanças nos afligem. Assustam. Isso é imprevisível. Mas uma vez que essa é uma questão de sobrevivência – em relação aos Direitos Humanos de pessoas – temos de fazê-la de qualquer maneira. Não temos o direito de excluir ninguém. Nossos medos são simplesmente um obstáculo a ser superado. Eles não podem e não devem ser motivo para negar a qualquer pessoa os seus direitos.
Um segundo aprendizado é que as pessoas precisam de apoio para atravessar o período de crise gerado pela mudança. E isso tem, no entanto, muito pouco a ver com os orçamentos. O ingrediente-chave no apoio efetivo à mudança são as relações de apoio. O que precisamos é “praticar bondade aleatória e atos insensatos de beleza” — uma palavra amável, um gesto pensativo. É saber que alguém vai estar lá quando você precisa. Recentemente, a Federação Americana de Professores lançou um ataque contra a inclusão — um assalto trágico e desorientado. Eles identificaram o apoio sendo essencial para tornar a inclusão efetiva e acham o “dumping” (colocar coisas de lado e esquecer) uma prática abominável.
Estamos totalmente de acordo. Mas o inimigo da falta de apoio nas escolas, do treinamento e ainda além não são as crianças inocentes ou a própria inclusão. Os vilões são os formuladores de políticas sem rosto, que continuam a golpear as estruturas de apoio que permitem e incentivam os professores e outras pessoas a caminharem o quanto é necessário. Se alguns educadores não conseguem entender e fazer a inclusão, talvez seja a hora procurarem outros empregos. É inteiramente legítimo que se ofereça segurança no emprego — mas não segurança contra a mudança. Pessoas que não podem apoiar os direitos de todos têm o direito à opinião pessoal, mas não o direito de ficar no caminho dos direitos dos outros cidadãos.
Concluímos que a inclusão é pura e simplesmente sobre MUDANÇA. É assustador — e emocionante. As recompensas são muitas. Será (e é) um trabalho difícil e, muitas vezes, emocionalmente desgastante. Erik Olesen, em seu livro “12 Passos para Dominar os ventos da mudança”, diz: “os medíocres resistem à mudança, os bem sucedidos a abraçam”. Devemos lutar pelo sucesso da inclusão e, portanto, aceitar a mudança com todo o nosso coração e alma. Devemos construir equipes fortes para apoiar uns aos outros. Devemos parar de desperdiçar nosso tempo nos preocupando com as “crianças”, quando o que precisamos é desenvolver equipes criativas, que enfrentam todos os problemas com o mesmo espírito encontrado no setor corporativo. Vamos tomar emprestados os slogans daqueles que vendem hambúrgueres, tênis e quartos de hotel: “Faça o que for preciso”, “Simplesmente faça (Just do it!)” e “Sim, nós podemos”. Estas são mensagens que podemos adotar para o nosso próprio trabalho! Finalmente, gostaríamos de lembrar que “um mal feito a um é um mal feito a todos!” e que, no caso da inclusão, “o bem feito a um será o bem feito a todos.”

*Marsha Forest e Jack Pearpoint são pesquisadores canadenses na área da Inclusão (Marsha, in memoriam). Este artigo foi publicado originalmente em 1991, em inglês, cujo título é Inclusion: It's About Change! e pode ser visto em http://www.inclusion.com/inclusion.html. A tradução aqui apresentada é de 2011. 



Fonte da versao em Portugues:

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