16 de out de 2013

A leitura nos processos de comunicação.



Quando penso na minha infância e nas minhas brincadeiras preferidas, a imagem de um livro sempre assume um papel fundamental, quase um protagonista. Não que eu fosse o modelo de criança tímida, que preferisse ler a brincar, pelo contrário, fui muito levada e passei minha infância subindo e caindo de árvores do quintal da minha casa e da casa dos meus avós. Mas além das traquinagens no mundo real eu também adorava as aventuras da imaginação, assim nos dias de chuva ou nas frias tardes de inverno, típicas do sul do Brasil, ler sempre foi minha atividade preferida. Tive sorte, venho de uma família de leitores, portanto além de ter uma pequena biblioteca em casa, tinha também o exemplo de adultos lendo pela casa. Com isso aprendi a ler muito cedo e fui o orgulho dos meus avós de quem herdamos essa cultura.  Por essa experiência maravilhosa, que abriu minha visão de mundo e ajudou a formar a mulher que sou hoje, sempre tive em mente que se um dia tivesse filhos passaria isso a eles, e o fato de meu filho ter nascido com deficiência intelectual em nenhum momento me fez pensar diferente, pelo contrário, desde o primeiro dia acreditei que o acesso ao mundo da literatura seria fundamental para garantir sua inclusão na sociedade. 

Algumas semanas após o nascimento de Adam, recebi de presente de uma amiga o livro Early Communication Skills for Children with Down Syndrome – A guide for Parents and Professionals escrito pela fonoaudióloga norte-americana Libby Kumin. Creio que já citei esse livro em vários posts porque simplesmente ele é maravilhoso. Além de conter informações bastante aprofundadas em relação ao funcionamento do aparelho fonador e dos processos de comunicação de maneira geral e mais especificamente das pessoas com SD, ele traz também muitos exercícios que fazem da leitura um real acesso à aprendizagem e prática efetiva para ajudar nossos pequenos na construção do conhecimento das palavras que culminará na fala.

Ao começar a ler o livro, me deparei com conceitos que já havia estudado nos meus tempos de Universidade, entretanto pouco a pouco fui percebendo o quão diferente pode ser o olhar sobre um texto, dependendo do porquê você o está lendo. Meu papel agora não era mais o de uma estudante que mais tarde iria ensinar aos alunos o conceito de comunicação, linguagem e fala, mas sim a de quem iria entender de que maneira  esse conhecimento poderia ajudar o meu garoto a aprender a falar.

Já nos primeiro capítulos Kumin nos esclarece algo que parece obvio, mas nem sempre temos em mente quando expectamos que nossas crianças falem, antes de podermos articular uma palavra, precisamos entender seu significado, ou seja, ensinar uma criança a falar deve começar pelo ensino das palavras e de seus significados. Esse processo se dá de maneira natural a todos nós quando aprendemos a falar e também quando aprendemos um novo idioma, e não poderia ser diferente com pessoas com deficiência intelectual, entretanto para que o caminho não seja demasiado longo e frustrante para essas pessoas, existe uma série de recursos que podem ser usados, tanto pelos profissionais da área de fonoaudiologia e terapia ocupacional, como, e principalmente, por nós pais, com quem as crianças estão na maior parte do tempo.

O uso de recursos audiovisuais, tais como imagens (desenhos, fotos, figuras, músicas, vídeos), de jogos (reais ou virtuais), de atividades que provoquem a ação/contextualização, ou seja, narrando para a criança as tarefas que fazemos com ela, na hora do banho falar das partes do corpo, na hora de trocá-la falar o nome dos vestuários, não hora da comida ensinar o nome dos alimentos, etc. são alguns exemplos. Além disso, temos outra fonte de aprendizado riquíssima, talvez a mais rica delas que é a leitura. Mas qual é o momento certo para iniciar a leitura com nossos pequenos?

Segundo Kumin “todas as crianças precisam saber sobre livros, ou seja, elas precisam ver os livros, revistas e outros materiais de leitura em casa e em ambiente escolar desde idade bem precoce. Elas também precisam ser leitoras e ter tempo para explorar os livros, pois elas podem virar as páginas e olhar através das figuras em um livro bem antes que elas estejam realmente preparadas para lê-lo. Quando adultos e crianças leem um livro juntos, estas constroem muitas habilidades de pré-leitura tais como: de que maneira segurar um livro, ler no topo até o final da página e da esquerda para a direita, reconhecer que as palavras impressas têm marcas ou rabiscos na página e também perceber a progressão página por página. A leitura também ajuda a ensinar e reforçar conceitos de linguagem. Quando você lê para seu filho, você o ajuda a desenvolver habilidades de recepção de linguagem, ajuda-o a aumentar sua compreensão, ajuda-o a ouvir as diferenças entre os sons e de maneira geral, propicia a estimulação da linguagem. Por exemplo, se você for a um piquenique e então ler um livro sobre piquenique, ou quem sabe fazer um livro pessoal usando suas próprias fotos, você reforçará o vocabulário e conceitos que vêm com a palavra piquenique”.

A especialista também frisa a importância que tem a escolha dos livros, pois a ideia é fazer com que o conhecimento seja construído passo a passo, e sempre de maneira acessível à criança leitora.  Nesse momento é importante saber que o processo de aprendizagem das palavras se dá por fase, primeiramente a criança aprende o significado de apenas uma palavra isoladamente, papai, mamãe, da, mais, meu, quer, bola, “au au” , “mimi”, etc. Essa a fase é chamada por Kumin de  “The One-Word Stage”. Depois vem a fase de duas ou três palavras, que é quando a criança começa a juntar as palavras formando pequenas frases, “meu bola”, “mamãe dá”, “mimi quer”, etc. Essa fase é chamada por Kumin de “The Two-and Three-Word Stages” e só acontecerá depois que a criança já tiver domínio de um considerável número de palavras isoladas.

Quando a criança ainda está na primeira fase, ou seja, na  “The One-Word Stage”, devemos procurar escolher livros baseados nos interesses e experiências dela, se vivemos em uma cidade grande, procuremos livros que contenham imagens de edifícios, carros, ônibus, metrô. Se vivemos em uma pequena cidade, ou costumamos passar os finais de semana em uma fazenda, propiciemos livros com animais, lagos, rios,  árvores, campos, pois é muito importante que possamos “tirar” do livro as imagens e transpô-las para a vida real, ou seja,  comparar o patinho que aparece no livro, com o patinho da vida real.

A autora ainda nos dá outras dicas, escolher livros com ilustrações coloridas; limitar o número de imagens em uma página de acordo com a habilidade visual da criança e ao nível de atenção; Limitar o tamanho do texto de forma que a criança mantenha o interesse (se percebemos que ela não está mais prestando atenção na história, tentemos chamar a atenção dela fazendo perguntas sobre o que estamos lendo, se ainda assim ela não se mantem atenta, encurtemos o texto e viremos a página); Criar um “livro pessoal” (livro feito com fotografias que retratem as atividades diárias da criança, seus familiares e amigos), pois crianças adoram ler livros sobre elas e sobre as experiências delas e isso aumenta sua motivação para ler ;  e  o mais importante de tudo, tornar a leitura uma experiência amorosa, compartilhada.

Outro aspecto muito importante nesse processo é o incentivo na participação da criança no processo de leitura, que vai aumentando conforme as habilidades dela vão se desenvolvendo. Podemos começar por apontar os personagens do livro e falar sobre eles, sobre o que está acontecendo, descrevendo a ação. Também podemos usar as bonecas, bichinhos de pelúcia e criar pequenos diálogos, dando vida aos personagens. Quando a criança já consegue articular algumas palavras essa atividade pode ser aproveitada para incentivar a repetição das palavras conhecidas e a apropriação de novo vocabulário. Também é um ótimo momento para “descobrirmos” o que ela quer dizer com aquele som ou sinal, caso se use a linguagem de sinais com a criança, pois muitas vezes em função das dificuldades de articulação, não conseguimos entender o que nossos pequenos estão falando.

A questão da compreensão é muito importante, pois muitas vezes por não se sentir entendida, a criança acaba se retraindo e deixando de falar. Adam recentemente começou a dizer “bibi” e eu não conseguia descobrir o que significava. Em principio achei que fosse o papai, pois esse é seu apelido, mas então, quando contava uma historinha em alemão e disse a palavra liebe (que se lê libe = amor) Adam repetiu “bibi”. Precisava ver a cara de felicidade dele, quando ele percebeu que a mamãe entendeu o que ele estava falando. Ainda nesse aspecto é muito importante que não nos preocupemos em corrigir a criança, devemos apenas repetir a palavra corretamente, dando modelos e deixar que esse processo aconteça de maneira natural.

Para concluir, é muito importante ter em mente que crianças com SD podem ler muitos diferentes conceitos e podem continuar expandindo seu vocabulário por toda sua vida, entretanto é durante o “The One-Word Stage” que a criança começa a preparar o terreno real para a aprendizagem da língua mais tarde. Como pais podemos participar desse processe de maneira ativa, provendo-a de experiências que expandirão o seu vocabulário enquanto ensinamos a elas sobre pessoas, objetos, além de forçar experiências linguísticas. Vale lembrar também que, como em qualquer processo e em qualquer idade, o aprendizado é muito mais efetivo quando sentimos prazer em aprender, portanto é muito importante que não passemos a ideia de que a aprendizagem é algo penoso, mas sim mostrar que a comunicação é gratificante e agradável e que valorizamos a comunicação, com isso nossos pequenos se sentirão muito mais motivados para aprender.

PS.: Enquanto lia este texto para o Pai, Adam pegou um livro, colocou-se atrás de mim e começou a imitar-me, marcando as minhas pausas e entonações. :)


                                         Como eu me divirto com o "tio" Beno lendo para mim!




Kumin. Libby, Ph.D., CCC-SLP, é Professora no Departamento de Speech-Language Pathology/Audiology no Loyola College em Maryland onde fundou o “The Down Syndrome Center for Excellence”. Ela também é autora do livro Classroom Language Skills for Children with Down Syndrome.


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