20 de nov de 2013

A falta do que não vivemos.

Existem textos que vira e mexe aparecem na vida da gente e fico muito feliz quando isso acontece, pois a releitura propicia à reflexão e nos faz perceber como nos transformamos sem muitas vezes não nos darmos. O texto Bem-vindo à Holanda da escritora Emily Pearl Kingsley é um bom exemplo disso, o li quando Adam tinha apensas alguns dias de vida e mais tarde o publiquei nos primeiros posts do blog. Nessa época já havia percebido uma diferença entre a Deisy que ainda estava esperando para descer do avião recem aterrado na Holanda e a que já havia passeado pelos campos de tulipas, e pensei: - “Peraí” será que eu realmente me preparei a vida inteira para ir à Itália?

De lá pra cá muitas foram as vezes que “topei" com ele por aqui e ali e em cada uma delas, uma nova reflexão surgia, proporcionando-me uma maior compreensão da maturidade advinda da maternidade de uma criança com deficiência. Entretanto há alguns dias conheci uma mãe e sua história, que me fizeram pensar em contá-lo de maneira um pouco diferente.

Imagine que você compra uma passagem para ir à Itália, na hora do check-in eles te dizem que esse avião vai para a Holanda e lhe dão a possibilidade de pegá-lo ou adiar a viagem. Depois de pensar sobre como seria conhecer um lugar no qual você nunca planejara ir, você decide viver essa experiência e enquanto espera o embarque, compra guias de turismo e um dicionário de holandês para ler na viagem, se prepara para aprender um idioma que você nunca tinha ouvido antes, e já se delicia com as tulipas, os moinhos de vento, os Rembrandts. Mas então, quando o avião aterrissa, vem a voz do comandante e diz, bem-vindo à Itália!

Como? Sei que estamos mais acostumados a ouvir a história de pessoas que como eu compraram um bilhete para ir à Itália e aterrissaram na Holanda, mas como seria a história das pessoas que fizeram o percurso contrário, como é o caso da mãe que citei acima?

“Lutei muito para ficar grávida, foram muitos anos de tentativas e muitos abortos espontâneos, até que um dia minha gravidez chegou na 14a semana. Após o ultrassom, meu obstetra me disse que havia uma grande probabilidade de que meu bebê tivesse SD, mas para uma comprovação era preciso fazer uma amniocentese. Cheguei em casa e juntamente com meu marido fomos procurar mais informações sobre tal teste e lemos que havia um risco de aborto. Decidimos pelo não, eu que já havia pensado que nunca seria mãe, não correria o risco de perder meu bebê, até por que não tínhamos certeza se interromperíamos a gestação, caso o teste desse positivo.

A partir desse dia eu me preparei para ter um filho com SD. Comprei livros, estudei sobre a síndrome, entrei em grupos de discussão sobre T21 e comecei a receber a revista da associação. Sabia da importância da intervenção precoce e já havia encontrado  fono, fisio e TO  e combinado no trabalho que no primeiro ano, após a licença maternidade, só trabalharia meio período. Então meu filho nasceu e não tinha SD.

Como? Eu me preparei para ir à Holanda, eu passei os últimos meses lendo tudo sobre Holanda, eu até aprendi algumas palavras de holandês e agora vocês me dizem que eu cheguei  à Itália?

Minha primeira reação foi de decepção, eu havia me preparado durante toda a gestação para um filho e ele não veio. Mas é claro que passadas as primeiras horas e depois de ver a felicidade nos olhos do meu marido não foi difícil voltar aos planos que havia feito a vida inteira, apesar de que percebo que muito das coisas com as quais sonhei são mais reais nos livros de maternidade do que na vida prática e confesso que muitas vezes penso como seriam nossas vidas caso ele tivesse nascido com SD.

Mas voltando a nossa viagem à Holanda, ou melhor, à Itália, então o susto passa e você descobre que ela é realmente muito bonita, mesmo que não seja exatamente como você pensara. Os monumentos estão lá, mas alguns são menores e outros maiores do que você imaginava, a língua italiana é fascinante, mas nem sempre é tão romântica, e a macarronada do restaurante indicado pelo guia não é tão saborosa, mas a do restaurante da rua de trás do mercado, que você descobriu por acaso, é maravilhosa.

Nesse dia, ao voltar para casa, fiquei pensando em como duas histórias de vida tão diferentes podem ter tanta coisa em comum. A espera por um filho que não veio (e aqui coloco a reflexão da Carol do blog NVCA que falou justamente sobre esse tema no post dessa semana), a capacidade de reaprender, de adaptar-se, de saber viver o novo com a energia da aventura, mesmo que em alguns momentos pensemos na vida que planejamos e não vivemos. A descoberta de novos lugares, de novas perspectivas para as mesmas coisas, a descoberta de moinhos de vento e tulipas na Itália e também um restaurante na Holanda que tem a pizza mais deliciosa que você já provou na sua vida. Mas de tudo isso, acredito que o ponto mais em comum é a certeza de que a vida, a maternidade e o amor são muito mais intensos que uma viagem planejada por uma agência de viagens na qual antes mesmo de chegar já sabemos que o café da manha será servido no salão 4 a partir das 8h da manhã.


Claude Monet's Home and Garden in Giverny in Spring - Giverny Photo by Ariane Cauderlier.Porque podemos ter tulipas fora da Holanda J

                                           

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